quinta-feira, 18 de abril de 2019

Espécies paleoautóctones (4): Tetraclinis



Tetraclinis articulata. Bosque de reflorestamento no Parque Natural de Calblanque (Cartagena, Espanha). / Fotografía: Nanosanchez / Dominio Público



Ocorre frequentemente que quando uma espécie ocupa uma área relictual, que a imagem que acabamos fazendo dessa espécie é muito condicionada pelo exíguo da sua área de distribuição. Muitas destas espécies, no entanto, muitas vezes vivem em áreas confinadas, principalmente devido a razões históricas, não tendo tido a possibilidade no passado de expandir ou alcançar outras áreas que podem ser favoráveis. Um exemplo claro é a Adelfa (Rhododendron ponticum), que se tornou nas Ilhas Britânicas e áreas adjacentes numa espécie temida pela sua capacidade de colonizar vastas extensões de terra. Nós tendemos a considerar que essas espécies só podem ocorrer naturalmente dentro da sua área de distribuição atual, sem pensar que, talvez tenham um espectro ecológico muito mais amplo do que se supõe.



O Alerce-africano (Tetraclinis articulata) É uma dessas espécies reliquiais ou consideradas como tal que atualmente possuem uma área de distribuição muito pequena na Península Ibérica. Considera-se geralmente que a sua área de distribuição natural é circunscrita às montanhas que circundam a cidade de Cartagena (ver mapa), região onde todos os esforços para repovoar esta espécie foram feitos. Chama muito a atenção que noutras regiões em que esta espécie foi plantada como ornamental a sua naturalização é frequentemente observada. Este tipo de observações é actualmente frequente na Comunidade Valenciana (Gandía). Devemos acrescentar a existência de várias populações naturalizadas em Ronda, nos arredores de Málaga e Doñana, onde até se pensou que esta espécie poderia ser nativa [1]. A possibilidade de que esta espécie teria uma extensão maior em tempos passados é apoiada, em qualquer caso, pela descoberta de madeira carbonizada desta espécie em diferentes sítios arqueológicos. [2]:





O passado deste género na Europa é relativamente difícil de estudar porque o seu pólen não é diferenciavel do resto das Cupresáceas, sendo os macrorrestos os únicos indícios que estão disponíveis. Estes indicam a presença durante o terciário de pelo menos dois tipos de Tetraclinis na Europa. Um deles (Tetraclinis salicornioides) Parece ter sido um componente acessório de florestas caducifólias e de florestas mistas e que vivia em condições bem diferentes das da espécie atual. O outro tipo (T. brachyodon) aparentemente vivia em áreas costeiras mais xericas. Este último tipo é o que mais se assemelha à espécie atual (ver foto), embora não seja de excluir que ambos os tipos sejam, na verdade, dois ecotipos da mesma espécie. [4]. A sua presença na Europa é documentada até ao Plioceno.


À esquerda: Tetraclinis brachyodon, Radoboj, Croácia, Mioceno Médio, escala: 3 cm. Direita: Tetraclinis articulata, Mogador, Marrocos, atual, escala: 3 cm


A ausência de fósseis mais recentes e a algo misteriosa história deste género durante o Quaternário que um estudo recente tem contribuído ainda mais para enredar [2]. Este estudo mostrou, com efeito, que a pequena população espanhola parece ter mais parentesco com a população tunisiana do que com a de Marrocos, que é muito mais próxima. Portanto, é possível que a população ibérica seja muito antiga e tenha permanecido separada da população africana desde antes mesmo do messiniano (Mioceno) ou que a população ibérica não seja realmente nativa ou que tenha recebido fortes influências da Tunísia em tempos históricos. (Fenícios / Cartagineses). Embora as idades das madeiras queimadas encontradas nos sítios arqueológicos sejam anteriores à chegada dos fenícios, nada exclui a possibilidade de trocas anteriores entre os dois lados do Mediterrâneo ou que essas populações nativas tenham sido mais tarde completamente suplantadas por árvores do norte de África.



De qualquer forma, fica claro que esta espécie tem um futuro brilhante na Península Ibérica. Naturaliza-se sem qualquer problema espontaneamente em todo o sul da península bem como na Comunidade Valenciana. Em outras áreas a priori menos favoráveis, também é perfeitamente capaz de se desenvolver. O exemplar do Jardim Botânico Real de Madrid, em todo caso, parece muito saudável apesar de ter sofrido mais de uma vez episódios muito frios. Como explicado pelo arquivo que o próprio Jardim Botânico publicou: "Embora na bibliografia encontrada se mencione sensibilidade às geadas, os dados disponíveis no Real Jardim Botanico dizem-nos que é resistente e que deve notar-se que este ano, com um frio prolongado de -12 ° C, é impossível detectar qualquer dano tanto nos galhos como no tronco ". É, portanto, uma espécie a ser levada em consideração no futuro em grande parte da Península Ibérica para tentar fixar os solos naqueles lugares onde a vegetação atual (azinhais) possa eventualmente desaparecer como resultado da mudança climática.


Tetraclinis articulataFamilia: CupressaceaeOrdem: Pinales

Pequena árvore de até 6 (12) m, com ramos finos e patentes. Folhas com ápice livre, triangular, providas de uma glândula resinosa nas costas. Estróbilo 0,8-1,2 cm, subgloboso-ovóide, tetragonal, com escamas prui­no­sas ou não no início e tingido de cinza quando maduras. Sementes 3-4 × 1-1,5 mm, com 2 grandes asas subescariosas c. 8 × 4-5 mm, obliquamente obovadas. 2n = 22 *.

Tetraclinis 

Pequena árvore monóica. Galhos aparentemente articulados, comprimidos. Folhas adultas escamiformes, em espirais de 4, as laterais maiores, aplicadas. Cones masculinos terminais; escamas com 4 sacos polínicos na face inferior. Estróbilos subtetragonais, solitários com 4 escamas como que valvuladas, lenhosas; as do par externo côncavas no dorso e as internas geralmente estéreis e sulcadas no dorso. Sementes amplamente bialadas. Género monotípico.


Descrição: Flora Iberica





[1] Esteve Selma, M.A.; Montoya, P.; Moya, J.M.; Miñano, J.; Hernández, I.; Carrión, J. S.; Charco, J.; Fernández, S.; Munuera, M. & Ochando, J. Tetraclinis articulata: biogeografía, ecología, amenazas y conservación, 2017. Dirección General de Medio Natural. 248 pp
[2] Sánchez-Gómez P., Jiménez J. F., Vera J. B., Sánchez-Saorín F. J., Martínez J. F., Buhagiar J. (2013). Genetic structure of Tetraclinis articulata, an endangered conifer of the western Mediterranean basin. Silva Fennica vol. 45 no. 5 article id 1073. 14 p.
[3] Bagonza Díaz J. (2010) / Tetraclinis articulata (Vahl) Mast. especie probablemente autóctona en Doñana / Ecología, Nº 23, pp. 139-150
[4] JOHANNA KOVAR-EDER' und ZLATKO Kvacek Z. (1995) / The record of a fertile twig of Tetraclinis brachyodon (BRONGNIART) MAI et WALTHER from Radoboj, Croatia (Middle-Miocene)


Autor: Adrián Rodríguez
Tradução: João Ferro


terça-feira, 2 de abril de 2019

Espécies paleoautóctones (3): Gleditsia

Quando chega o outono no Parque do Retiro de Madri e as árvores de folha caduca começam a perder as suas folhas, destaca-se entre elas uma árvore de tamanho bem diferente da dos seus vizinhos e de cujos ramos armados de espinhos dissuasivos pendem enormes legumes escuros que depressa acabam cobrindo o solo ao pé da árvore. A natureza do fruto sugere que é uma leguminosa, mas esta árvore pertence, no entanto, a uma subfamília essencialmente tropical, da qual há muito poucos representantes nas zonas frias temperadas. O espinheiro-da-Virgínia (Gleditsia triacanthos) e a árvore-do-café (Gymnocladus dioicus) são, de fato, as únicas espécies da subfamília das Cesalpinioideae cultivadas no nosso país que verdadeiramente suportam o frio. Ambas as espécies compartilham algumas características que são características dessa subfamília, como folhas bipinadas e a presença de glândulas (nectários extraflorais) nos pecíolos ou pecíolos das folhas, as flores actinomórficas, etc. Ao contrário da maioria das espécies desta subfamília, no entanto, ambas as espécies têm flores unissexuais. As acácias também pertencem a esta subfamília, mas não são tão resistentes ao frio como estas duas espécies.




Uma característica interessante das Geditsias é que o mesmo indivíduo pode ter folhas pinadas, bipinadas ou, como pode ser visto nesta fotografia de uma folha de Gleditsia sinensis, parcialmente pinada e parcialmente bipinada (Real Jardim Botânico de Madri)



O género Gleditsia, composto por cerca de 14 espécies, é outro exemplo claro de género com área de distribuição disjunta, estando 3 espécies presentes nas Américas e todas as outras na Ásia. Uma dessas espécies está presente no sul do Mar Cáspio e isso permite-nos intuir que este género estava provavelmente presente em todo o Hemisfério Norte antes das glaciações. Tal como mostra o mapa abaixo, existem poucas evidências fósseis deste género no Plioceno ou no Pleistoceno Europeu e estas não são suficientes para saber qual era a sua distribuição espacial e temporal. Mas confirma-nos, no entanto, que o género tinha uma distribuição holártica antes das eras glaciais. O retorno deste género para o continente europeu, curiosamente, não foi feito a partir do seu reduto na bacia do Mar Cáspio, mas do continente americano. O espinheiro-da-Virgínia (Gleditsia triacanthos), Originária de uma extensa área da América do Norte, agora encontra-se naturalizada em grande parte do continente europeu. É até inclusivamente cultivada na área onde a Gleditsia caspica é originária verificando-se que ambas as espécies se hibridizam com muita facilidade. Um estudo recente (1) conduzido no Azerbaijão mostrou que, mesmo nas reservas naturais, muitos dos indivíduos observados são já híbridos de primeira geração. Este exemplo mostra que apesar do longo tempo que ambas as espécies se separaram, o processo de especiação ainda não conseguiu impedir ou dificultar o cruzamento das diferentes estirpes deste género.




O espinheiro-da-Virgínia é um caso interessante de espécie "orfã". Provista de espinhos dissuasivos em grande parte do seu tronco e nos seus ramos, produz frutos com uma polpa açucarada altamente apreciada pelos herbívoros, chama muito a atenção que não exista atualmente nenhuma espécie de herbívoro que preferencialmente se alimente dos seus frutos ou das suas folhas e que realmente tenha co-evoluído com esta espécie. Na América do Norte, suspeita-se que sejam provavelmente elementos da megafauna recentemente desaparecida, como as preguiças-gigantes, as que comiam os seus frutos e contribuíam para disseminar as sementes (2). Na Europa, não é tão claro com que tipo de herbívoro interagiria, embora observações feitas na Argentina sugiram que outros grandes herbívoros também poderiam ter-se alimentado dos seus legumes. O gado é, nesta região, o que contribui principalmente para a propagação desta espécie.




Flor masculina de Gleditsia sinensis (Jardim Botânico Real de Madrid). As flores são actinomorfas. Pétalas e sépalas são muito semelhantes entre si.



GleditsiaFamilia: FabaceaeOrden: Fabales

Árvores de folha caduca, espinhosas ou desarmadas, com tronco bem definido, casca enegrecida e rachada, funcionalmente monóica. Ramos alternados, muitas vezes com espinhos ramificados. Folhas pulvuladas, estipuladas, pecioladas, 1-2 paripinadas; estípulas livres entre si, não soldadas ao pecíolo, prontamente caducas; pináculos e folhíolos pulvinulados; folhíolos com margem serrilhada ou crenada, com glândulas roxas perto do pecíolo (estípulas) e em cada um dos seios dos dentes. Inflorescências em grupos de caules, os masculinos multiflorais, pêndulos, os femininos pauciflorais, eretos; flores bracteadas, actinomórfas, funcionalmente unisexuais, com néctar; receptáculo floral em forma de taça (hipanto) de cujo ápice o perianto e o androceo nascem, e da base, o gineceo. Perianto diclamídeo, com 2-5(7) peças externas (sépalos) e 3-5(7) internas (pétalas) de forma e côr semelhante (tépalos); tépalos verde-amarelados, com o dorso, e por vezes também o ventre, acetinado. Androceo com (3)5-7(10) estambres livres; filamentos estaminais cilíndricos, os das flores masculinas glabros ou peludos na base, os femininos peludos; anteras ovóides, dorsifixas, com abertura lateral alargada. Ovário estipitado, puberulento, com numerosos rudimentos seminais, biseriados; estilo pouco definido perto da base na antésis, depois reto; estigma húmido, discóide ou elíptico, ± bilobado. Fruto estipitado, pendulo, plano, algo ondulado e retorcido, indeíscente, carnudo, com numerosas sementes. Sementes com mais de 8 mm, ovóides, aplanadas, lisas, com fio punctiforme e rafe coriáceo e persistente, sem estrofíolo. x = 14.





Legumes de Gleditsia triacanthos no Parque do Retiro (Madrid).



Espécie cultivada nos nossos parques desde há muito tempo e da qual também se desenvolveu uma variedade sem espinhos. Parece, no entanto, que a sua classificação como espécie invasora condena por agora esta espécie a deixar de ser utilizada como árvore ornamental. A sua ampla naturalização no entanto, garante por enquanto a sua sobrevivência na nossa flora.



(1) Schnabel1 A. & Krutovskii K. (2004) / Conservation genetics and evolutionary history of Gleditsia caspica: Inferences from allozyme diversity in populations from Azerbaijan / Conservation Genetics, Vol.5, pp. 195–204, 2004
(2) Whit Bronaugh (2010) / The Trees That Miss The Mammoths / American Forests (Winter 2010 issue)


Autor: Adrián Rodríguez
Tradução: João Ferro


sexta-feira, 22 de março de 2019

Espécies paleoautóctones (2): Nyssa



Folhas de Nyssa sylvatica no outono.



Pouco conhecidos e ainda pouco utilizados no nosso país (Espanha), os tupelos (Nyssa), são árvores de folha caduca que são altamente valorizadas em outros países pelas suas magníficas cores outonais. Existem atualmente 8 espécies reconhecidas neste género, todas com requisitos de água bastante elevados. Os mais comumente cultivados e com a maior área de distribuição (N. sylvatica y N. sinensis) são típicos de florestas úmidas e ribeirinhas. Outras, como N. aquatica, N. biflora ou N. ogeche (todas norte americanas), estão adaptadas para viver em áreas pantanosas e têm uma base ampla muito típica das árvores que crescem nesse tipo de ambiente, como o cipreste dos pântanos (Taxodium distichum) onde convivem em muitos lugares. No nosso país (Espanha) ainda é raro vê-los, embora já seja possível obter N. sylvatica em alguns viveiros.



As flores dos tupelos são pouco chamativas. Estas pertencem a N. sylvatica. / Fotografía: Using georgia native Plants



O género Nyssa é um outro exemplo de taxon com uma área de distribuição disjunta ao nível continental, com 5 espécies no Este da América do Norte e mais 3 no Este da Ásia. O género, como era de se esperar, também estava presente no continente europeu antes da era glacial, onde diferentes espécies fósseis mais ou menos relacionadas às espécies atuais foram descritas. Tal como se pode observar no mapa, as citações mais recentes vêm da bacia Mediterrânica (Pleistoceno Médio) e da região do Mar Cáspio, onde parecem ter sobrevivido até ao último período interglacial (Eemiense) no delta do rio Emba. Faltou-lhes realmente muito pouco para sobreviver no nosso continente.




Junto a outros pequenos géneros (Camptotheca, Davidia, Diplopanax, Mastixia), este género constitui a pequena família das Nyssaceae, relacionados com a família das Cornáceas, em que ainda estavam incluídas na classificação APG III. As Nisáceas, como boa parte dos Cornales, ainda apresentam características primitivas como, por exemplo, as pétalas livres e o porte arbóreo, que também podem ser observados na ordem vizinha dos Ericales, por exemplo.

NyssaFamilia: NyssaceaeOrdem: Cornales

Árvores dioicas ou funcionalmente dioicas (com flores unisexuais ou hermafroditas nas quais os estames não chegam a amadurecer). Casca cinzento acastanhada, rugosa e com nervuras. Folhas muitas vezes agrupadas na ponta dos ramos, alternadas, sem estípulas; pecíolo de seção circular ou alada; limbo geralmente elíptico a oblongo-lanceolado ou oblongo, raramente ovado, Com base cuneiforme a arredondada. Flores geralmente agrupadas em cabeças ou cachos curtos, na axila de uma bráctea com 2 brácteas. Sépalas soldadas entre si, formando um pequeno aro; Pétalas livres, esverdeadas a brancas esverdeadas. Flores masculinas pediceladas. Estames 10, dispostos em duas voltas, filamentos lineares, anteras biloculares, encosto fixo, que se abrem por fendas longitudinais laterais. Disco nectarífero intrastaminal, pulvinado. Flores femininas (4)5-meras, não pediceladas, estaminódios geralmente presentes. Ovário baixo, 1(2)-locular, 1-ovulado; estilo subulado ou cónico, bífido, com tecido estigmático na parte interior dos braços estilares. Fruto drupáceo, ± aplanado lateralmente, com disco e cálices persitentes, de cor negro-azulada, às vezes purpúreo avermelhado, amarelo, alaranjado ou roxo. Mesocarpo suculento, ácido. n = 22.


A única espécie que é ocasionalmente cultivada na Península Ibérica é Nyssa sylvatica que, no entanto, é sensível à geada quando jovem e difícil de transplantar. Isso faz com que seja relativamente rara e que se tenha de ir a arboretos ou jardins botânicos para observá-la.



Frutos de Nyssa sylvatica / Fotografía: Great Plains Nursery


Autor: Adrián Rodríguez
Tradução: João Ferro


sábado, 16 de março de 2019

Espécies paleoautóctones (1): Carpinus



Folhas e inflorescências de carpa branca (Carpinus betulus).



Se uma espécie merece, mais que qualquier outra, o apelativo de "paleoautóctone", seja qual seja o sentido que se queira dar a esse neologismo, essa é sem lugar para dúvidas o cárpino ou carpa (Carpinus betulus). Esta espécie ainda está presente de forma reliquial, no vale do Bidasoa (Espanha), mas teve no passado recente uma área de distribuição muito mais extensa na Península Ibérica. E não é necessário retroceder muito no tempo ou no passado para encontrar marcas da sua presença. Em boa parte do norte peninsular e da faixa atlântica, a sua presença foi confirmada durante o ótimo climático do Holoceno, época em que chegou a alcançar o Sistema Central Ibérico [1]. As suas localidades atuais são pois, os últimos testemunhos de una presença muito mais ampla. Caberia pois perguntar-se porque desapareceu de boa parte das localidades que chegou a alcançar naquela época. As explicações mais prováveis de tal retrocesso são o progressivo aumento da estacionalidade depois desse ótimo climático alcançado entre 9000 e 5000 anos antes do presente e o início da exploração agrícola das terras que eram mais favoráveis a esta espécie.



O cárpino branco é uma espécie muito exigente, com exigências de água e solo que não são frequentemente encontradas na Península hoje. Não é uma espécie que tolere a seca e desenvolve-se preferencialmente em solos ricos e profundos que geralmente são o que normalmente encontramos em áreas de planície. É, por outro lado, uma espécie que suporta o calor muito bem, sendo perfeitamente capaz, se for irrigada, de suportar os implacáveis verões do centro da Península. Alguns exemplares plantados no meu bairro (Madri) já medem cerca de 4 a 6 metros, florescem e dão frutos a cada ano, suportando sem muitos problemas os 40 graus que são atingidos em julho e agosto. Quanto muito, parte das folhas secam, mas isso não põe em perigo a sobrevivência dessas árvores.


Mapas da distribuição atual do cárpino branco (C. betulus) e do cárpino oriental (C. orientalis) [2].



Em tempos anteriores à última era glacial, o cárpino esteve presente em boa parte da Península, há que destacar também a presença no final dos princípios do Plioceno e do Pleistoceno do cárpino oriental, hoje presente apenas no Este do continente e da bacia mediterrânica o que também deve ser notado. O cárpino oriental não é uma espécie vicária. Trata-se de um cárpino melhor adaptado à seca que C. betulus, o que o converte, na Europa Oriental num elemento típico da vegetação sub-mediterrânica, convivendo lá com espécies como o carvalho pubescente (Quercus pubescens), o carvalho peludo (Quercus cerris) ou o cárpino negro (Ostrya carpinifolia). Ou seja, que, pela sua ecologia, é bastante diferente do cárpino comum, que é uma espécie de ambiente subatlântico e centro europeu.

CarpinusFamilia: BetulaceaeOrden: Fagales

Árvores ou arbustos. Botões fusiformes e aguçados. Folhas ovais ou ovais-elípticas, agudas, duplamente serradas, com 9 ou mais pares de nervos secundários muito marcados e regulares. Amentilhos sésseis masculinos, solitários; flores nuas, solitárias na axila de cada bráctea, sem órtese; Estames 6-20, pubescentes, de filamentos bífidos, muito curtos. Amentos terminais femininos, relaxados, pendentes na maturidade, com brácteas folhadas; flores geminadas, com perianto; rudimentos seminais 1 (2); estilo dividido em 2 filiformes, ramos verdes. Aquénios dispostos em espigas suspensas, pequenos e comprimidos, envolvidos por um grande invólucro foliácio grande, trilobado ou serrado, com venação acentuada, originado por acréscimo da bractea única.


A destacar também aqui a presença inesperada do cárpino nas Ilhas Canárias até ao final do Holoceno [3] Mais surpreendente talvez, por causa da distância que das condições climáticas. Essa presença não é tão surpreendente, no entanto, sabendo que também estava presente nos maciços montanhosos do Saara em tempos muito mais úmidos do que hoje.





Fruto de Carpinus betulus (topo) comparado com os frutos de Carpinus orientalis (fundo).


O cárpino branco é uma espécie comumente cultivada no nosso país (Espanha), onde surpreende, em muitos lugares, pela sua capacidade de suportar as altas temperaturas de verão. Tal como mencionámos anteriormente, a falta de água parece ser o verdadeiro fator limitante para esta espécie. Por outro lado, surpreendentemente, o cultivo de cárpino oriental não despertou muito interesse no nosso país (Espanha). Sendo esta uma árvore muito menos exigente, é curioso que não tenha sido tentada pelo menos nos nossos parques e jardins. Sendo uma árvore de dimensões relativamente pequenas, que muitas vezes nem sequer passa de arbusto, pode ser entendido que não despertou o interesse dos silvicultores. Seria, no entanto, um elemento a ter em conta para aumentar a biodiversidade das nossas florestas em áreas de clima sub-mediterrânico, em que para além dos sempre eternos Quercus, não abundam muitas frondosas arbóreas.

Plantei algumas sementes de Carpinus orientalis há alguns anos, sem nenhum tratamento e nenhuma delas germinou. No ano passado, no entanto vi duas pequenas árvorezinhas aparecerem nos meus vasos que podem muito bem corresponder a essa espécie ou talvez ao cárpino negro, por enquanto não sou capaz de lhes dar um nome. No próximo ano terei que tentar novamente, já que esta espécie me parece muito interessante para as condições climáticas do nosso país.



Autor: Adrián Rodríguez
Tradução: João Ferro


terça-feira, 1 de maio de 2012

Vulcões no Brasil ?



De todos os fenômenos naturais, provavelmente sejam as erupções vulcânicas as que mais terror inspiram. O poder de destruição dos vulcões é realmente aterrador por mais que não aconteçam com muita freqüência. As erupções vulcânicas, porém, seguem um ritmo próprio, que se conta em milhares ou dezenas de milhares de anos. A memória dos homens geralmente não alcança para lembrar desses acontecimentos e, até que os arqueólogos descobriram as ruínas de Pompeia e de Akrotiri (na ilha de Santorini, no Mar Egeo), no século XIX, ninguém era consciente que as erupções vulcânicas podiam acabar com cidades e civilizações inteiras. Um risco totalmente ignorado pelos homens mas bem real. Um pais como a Indonésia provavelmente sumiria se acontecesse de novo uma super-erupção como a que há uns 70.000 anos (erupção do Lago Toba) sumiu o mundo inteiro num inverno que se prolongou por vários anos (acreditasse que pode ter provocado ou precipitado a ultima era do gelo) e cobriu a Índia inteira de uma camada de cinzas de entre 2 e 9 metros. Assustador, não é ? O pior de todo é que nenhum geólogo com um pouco de juízo pode afirmar que isso não vai acontecer de novo...



Fresco com golfinhos nas ruinas de Akrotiri, na ilha de Santorini (Grecia). A civilizaçao minoica, que dominava a Creta e todu o mar Egeo, sumiu totalmente apos a erupçao do vulcao da ilha de Thera (hoje Santorini). Acreditasse que essa catastrofe está na origem do mito da Atlántida. Fotografía: Armagnac-Commons. Licencia: GDFL



Falando nisso... será que tem vulcões no Brasil ? A resposta a essa pergunta depende do que consideramos um vulcão. Se estamos falando de vulcões ativos, então a resposta é não. Não tem vulcões ativos no Brasil. A emissão de lava e a formação de vulcões acontece principalmente em zonas tectónicamente ativas, já seja onde as placas litosféricas convergem e entram em colisão (como acontece na costa oeste do continente americano), ou onde se separam e se forma nova litosfera. Também podem se formar em pontos isolados da litosfera, em lugares situados acima de pontos quentes onde está concentrado o fluxo de matéria ascendente e de energia desde o manto terrestre. O Brasil esta hoje situado numa zona estável da litósfera, mas são muitos os indícios do que não sempre foi assim no passado, conservando-se em muitos lugares rochas vulcânicas que são as pacificas testemunhas de antigas e catastróficas erupções que ainda tem um impacto importante nas paisagens. Vejamos alguns exemplos viajando no tempo do presente para o passado mais afastado.



Um dos melhores lugares no Brasil para observar rochas vulcânicas é, sem lugar a dúvidas, o arquipélago de Fernando de Noronha. Situado no Océano Atlántico, a sua formação se deve a presença de um ponto quente embaixo da litosfera que também deu lugar ao nascimente de uma serie de vulcões no Rio Grande do Norte.



Cenozóico: o Nordeste quente

Os vulcões mais recentes se formaram no Brasil há uns 19 milhões de anos, no Nordeste. São a conseqüência de um episódio vulcânico relacionado com a presença de um ou varios pontos quentes nessa região. Alguns destes vulcões são bem conhecidos, sendo um deles (a ilha de Fernando de Noronha) um destino turístico muito popular. Ainda assim, os turistas que passam as ferias nessa ilha não necessariamente são conscientes do que estão desfrutando do sol no coração de um antigo vulcão (extinto). Outro vulcão daquela época, também muito conhecido, é o Pico do Cabugi, um dos picos mais altos do estado do Rio Grande do Norte. Trata-se na realidade da garganta do vulcão, a parte central (conduto) solidificada, formada por rochas muito mais resistentes que o resto do edifício vulcânico, que a erosão eliminou totalmente. Esse vulcão é o mais conhecido de toda uma serie de corpos vulcânicos nesse estado que tem a mesma origem.



Pico do Cabugi (Angicos, Rio Grande do Norte). O perfil piramidal desse pico é enganoso. Do vulcão original só fica o conduto central solidificado. O tálus está formado por blocos resultantes do colapso das rochas do conduto (também se usa a palavra inglesa neck para descrever essa parte central solidificada do volcão). Fotografía: Patrick. Licencia: GDFL



Mesozoico: o divorcio da Africa

O evento mais relevante da historia geológica durante o Mesozóico foi, sem lugar a duvidas, a deslocação do super-continente chamado pelos científicos de Pangea. Esa massa continental que agrupava todos os continentes do Paleozóico rapidamente começou a se deslocar, sob o efeito dos movimentos de convecção no manto terrestre. Há uns 135 milhões de anos, abriu-se no sul do super-continente uma enorme fratura que seria o prelúdio da abertura do Atlântico. Fraturas como essa também existem hoje em dia, sendo o melhor exemplo o grande vale do Rift, que divide toda África desde Síria até o Mozambique, como conseqüência da separação das placas africana e arabiga. Estas fraturas são lugares onde a litosfera se estende, se quebra e fica mais fina, provocando a subida das rochas do manto. Essas rochas, que normalmente sofrem enormes pressões, passam então por um processo de fusão parcial que produz uma quantidade muito importante de magma basáltico. O magma assim produzido é o constituinte essencial da crusta oceânica formada nas dorsales oceânicas. Nos estádios iniciais da formação de um oceano, essas lavas podem se espalhar sobre a superfície continental que está se fraturando.



Diagrama animado mostrando a abertura do Atlantico. As rochas vulcânicas derramadas a consequencia dessa abertura aparecem em vermelho.



Tal fenômeno aconteceu no sul do super-continente do Gondwana no começo do Cretáceo, onde enormes quantidades de lava cobriram os relevos existentes. Trata-se de lavas muito fluidas e essas erupções não tiveram um caracter explosivo. O exemplo mais próximo são as erupções observadas em vulcões como o Kilauea, nas ilhas Hawai. A diferença, porém, está no volume de lava emitido. Essas erupções liberaram quantidades inacreditáveis de lava e cobriram no sul do Brasil e nos países vizinhos uma superfície de mais de 1 milhão de kilómetros quadrados. Um autêntico mar de lava que cobrira repetidamente a bacia do Paraná ! Esse caracter fluido da lava é a explicação do caracter absolutamente plano que apresentam os planaltos do sul do Brasil, onde os principais acidentes do relevo correspondem aos escarpamentos que  separam um planalto do outro. Essas erupções aconteceram nesta região durante varios milhões de anos e se acumularam em alguns lugares até 2000 m de basaltos.



Vista aérea das cataratas de Iguaçu. Nesta fotografia da para ver perfeitamente as escadas que formam as sucesivas camadas horizontais de basalto. Fotografía: Leonard G. Licencia: Dominio Público



Paleozoico e Proterozoico: océanos e continentes perdidos

Ainda que sejam as ocorrências mais evidentes e mais recentes de rochas vulcânicas, as anteriormente descritas não são as únicas existentes no Brasil. Aberturas de oceanos como a que provocou os derrames de lava na bacia do Paraná já aconteceram muito antes. O continente sudamericano na verdade é um complexo "collage" de continentes muito más velhos e mais pequenos que as forças tectônicas separam e juntaram varias vezes numa historia de centos de milhões de anos durante os que o vulcanismo sempre teve um papel muito importante nas margens ativas desses continentes. A maioria dessas rochas antigas foram deformadas e transformadas em rochas metamórficas, sendo excepcional a conservação dos caracteres originais dessas rochas vulcânicas.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Araucária, sobrevivente do tempo dos dinossauros

A primeira imagem que vem na mente de qualquer pessoa quando se fala da natureza do Brasil é a floresta amazônica. Essa imensidão de árvores percorrida por inúmeros rios de dimensões grandiosas que excitou a imaginação de muitos exploradores, que acreditavam que iam encontrar neste lugar misterioso o mítico Eldorado. As dimensões quase continentais da Amazônia fazem esquecer que o Brasil, não é só esse pais tropical que Jorge Bem cantava. A diversidade das paisagens, da flora e da fauna é, porém, bem maior do que se pode imaginar num país tão grande e muitos estrangeiros ficariam provavelmente surpreendidos de saber que até é possível ver neve quando o inverno austral atinge os estados do sul. Neste artigo vamos falar de uma árvore bem conhecida no sul do país, que virou um autêntico símbolo a pesar de ter sido explorada sem piedade durante todo o século XX. O pinheiro-do-Paraná (Araucaria angustifolia) é uma das plantas mais surpreendentes da flora do Brasil, um autentico fóssil vivo cuja existência está sendo gravemente ameaçada pela cobiça dos homens...



Tronco de um pinheiro-do-Paraná em Itaiópolis (Santa catarina), na Reserva Particular do Partrimônio Natural das Araucárias Gigantes, criada pelo Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade, ONG ambientalista fundada por Elsa Nishimura Woehl e Germano Woehl Jr. O tronco deste pinheiro tem uma circunferência na base de 4,10 m. Fotografía: Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade.



A árvore foi chamada de pinheiro pelos europeus porque lembrava a eles os autênticos pinheiros, que pertencem a um gênero (Pinus) e uma família (Pinaceae) diferentes e são originários do hemisfério norte. Também se usa muitas vezes o nome de araucária, que é o nome científico do gênero ao que pertence esta espécie e que os cientístas criaram adotando o nome dado pelos índios araucanos a espécie irmã (Araucaria araucana) que cresce nos Andes da Argentina e do Chile. No idioma tupi-guarani, a árvore recebe o nome de curi, palavra que está na origem do nome da cidade de Curitiba, topônimo que quer dizer “lugar com muitos pinheiros”. As araucárias são umas das árvores próprias do Hemisfério Sul que hoje só crescem no sul do continente americano e na Oceania (Austrália e Nova Caledônia). Eram, há milhões de anos, um elemento destacado da flora da Antártica, antes da vegetação desse continente ser totalmente eliminada pelo gelo. Foram, junto com outras espécies de coníferas, elementos dominantes da flora terrestre durante os tempos triássicos e jurássicos. Só por isso, deveria o homem, recém chegado nesta terra, sentir um profundo respeito por essas árvores que já erguiam o característico perfil delas no tempo dos dinossauros.



Mata de araucárias no planalto do Paraná fotografada em 1884 pelo fotógrafo Marc Ferrez. Hoje em dia os pinheiros só sobrevivem em lugares que não puderam ser explorados nem cultivados.



De todas as árvores existentes no Brasil, o pinheiro-do-Paraná é provavelmente a mais fácil de reconhecer. Tem um perfil característico, com um tronco colunar do qual saem galhos perpendiculares que vão crescendo e se erguendo progressivamente, dando a árvore um típico aspecto de candelabro. Quando as condições são favoráveis, sobre solos ricos e profundos, pode atingir até 50 m de altura e seu tronco ter até 2,5 m de diâmetro. Os galhos mais velhos pouco a pouco vão cedendo sob o efeito do peso e, finalmente, desaparecem, ficando na árvore só os galhos mais altos. As folhas, persistentes e rígidas, são relativamente pequenas (não ultrapassam os 6 cm) e tem uma forma linear ou lanceolada bem diferente da forma que podem ter as folhas de outras árvores tropicais, geralmente muito maiores. Vendo a forma da árvore e das suas folhas, fica claro,que estamos em presença de uma árvore totalmente diferente das outras. Vendo as inflorescências e os frutos, aparece claramente que essa árvore é uma conífera, ou seja, uma planta cujas estruturas reproductivas estão formadas por escamas geralmente agrupadas em cones (pinhas). Trata-se de um grupo de plantas muito antigo que dominou a flora da terra na era Mesozoica. Hoje, são um grupo relictual com poucas espécies em comparação com as plantas com flores (ou Angiospermas), aparecidas no fim da era jurássica. No Brasil, por exemplo, de 56.000 espécies de plantas conhecidas só 16 espécies são coníferas. A araucária é a única espécie desse gênero presente.



Distribuição atual da familia dasAraucariaceae. No sul da América vivem duas espécies: Araucaria araucana no Chili e na Argentina e Araucaria angustifolia (pinheiro-de-Paraná) no sul do Brasil e N da Argentina (provincia de Misiones).




Espécie típica do sul do Brasil, o pinheiro-do-Paraná cresce nas partes mais altas dos estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná, numa altitude acima de 500 m, onde a espécie foi relativamente frequente num passado não tão distante. Também está presente em outros lugares, como nos Estados de São Paulo e de Minas Gerais, sempre numa altitude acima dos 800 m. Foi nos planaltos paranaenses que ocupou a maior superfície, sendo uma espécie particularmente bem adaptada ao clima tão variável dessa região, onde os verãos são quentes e os invernos são realmente frios, podendo a temperatura descer abaixo de zero. Nessas matas de altitude, o pinheiro convive com muitas outras espécies próprias da mata atlântica, sendo ela a que ocupa o ponto mais alto da floresta, destacando o seu característico perfil acima das outras árvores. Essa imagem pode deixar pensar que o pinheiro é a espécie dominante dessas florestas, mas a verdade é que precisa de luz para crescer e as pequenas araucárias só conseguem se desenvolver quando a floresta é vítima de algum tipo de perturbação que consegue abrir espaços na escura massa de árvores. A principal delas é o fogo, que os pinheiros são capazes de resistir devido possuírem um tronco com uma casca de até 15 cm de espessura que protege o interior do tronco e por ter as partes vitais da árvore bem longe do chão. Trata-se portanto, de uma espécie pioneira que mais tarde convive com as outras espécies que crescem ao redor dela e que vão pouco a pouco "fechando" a floresta, condenando os jovens pinheiros a uma escuridão fatal para eles.



Sua importância, durante todo o século XX, acontece pela utilização da madeira do pinheiro, utilização mais importante desta espécie. A madeira do pinheiro-do-Paraná é de boa qualidade, muito usada para fabricar móveis, construir casas, etc. Com a mecanização da exploração ao final do século XIX e a chegada maciça de imigrantes europeus, se desenvolveu muito a arquitetura em madeira nos estados do sul, favorecida pelo baixo custo de construção. Virou uma verdadeira tradição num estado como o Paraná e muitas dessas casas de madeira são hoje consideradas patrimônio nacional. A mata de Araucárias foi intensamente explorada durante o século XX, sendo então essa atividade um dos motivos essenciais do desenvolvimento econômico dos estados do Sul. Línhas ferroviárias e vias de comunicação foram construídas, nessa época para poder comercializar a madeira dos pinheiros. O resultado dessa exploração industrial, causou o quase desaparecimento da mata de pinheiros. Calcula-se, que a área de mata de pinheiros cobria originalmente uns 200.000 km2, representando 40% da superfície do estado do Paraná, 30% de Santa Catarina e 25% do Rio Grande do Sul. Hoje em dia não existe quase nada dessas florestas, apenas 1 ou 2 % da cobertura original da floresta com Araucária.

A espécie, considerada em perigo crítico de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), está hoje teoricamente, estritamente protegida, mas, ainda assim, as araucárias seguem sendo derrubadas ilegalmente pelos madeireiros. Será realmente uma pena que o homem consiga em pouco mais de um século levar a extinção uma espécie presente há já milhões de anos... A madeira do pinheiro chegou a representar até o 93% do total das exportações brasileiras de madeira. Uma quantidade enorme que explica a devastação que sofreram as florestas dos estados do sul e do Paraná, em particular, onde foram exploradas sem que ninguém se preocupasse pela regeneração dessas florestas. Hoje, a maior parte da superfície está ocupada por terrenos agrícolas. Os desastres ambientais causados pelas chuvas desde há mais de 5 décadas demostram que o perigo de ver essas terras sofrer os efeitos da erosão é bem real mas, a pesar de existir muitos projetos para reverter a situação, ninguém sabe ainda se finalmente conseguiremos salvar essas florestas.



Pinha aberta da Araucaria angustifolia mostrando as escamas que forman o cone (ou pinha) e as sementes. Fotografía: Deyvid Setti e Eloy Olindo Setti



Além de ser uma espécie que produz uma excelente madeira, o pinheiro-do-Paraná também apresenta um interesse culinário. As sementes (pinhão) são comestíveis é constituíam um elemento fundamental da dieta dos índios que viviam no sul do Brasil. Um interesse compartilhado por muitas espécies de animais, que ajudam assim a dispersão das sementes, que alguns pássaros, como as gralhas, enterram no chão constituindo reservas para o inverno. Muitas dessas sementes ficam esquecidas e finalmente germinam conquistando novos espaços. O pinhão é, freqüentemente, utilizado no sul, onde é usado em saladas, tortas e bolos ou simplesmente assado na fogueira. Em muitas cidades celebra-se, cada ano uma festa do pinhão, que marca o final do outono austral e coincide com as festas juninas. A colheita começa geralmente o dia 15 de abril e segue até o mês de julho. A atividade está hoje severamente controlada, já que as colheitas ilegais agravam o problema para a recuperação da espécie.



Pinhoes servidos como aperitivo. Fotografia: Adrian Michael. Licencia: GNU Free Documentation License.



A pesar da triste situação atual das matas de araucárias, o futuro talvez não seja tão escuro. Dependerá muito da vontade política, para que essa espécie volte a ter a importância que teve. Trata-se de um esforço a longo prazo, já que o pinheiro não cresce tão rápido como outras espécies exóticas, que tem sido plantadas em seu lugar (eucaliptos, pinheiros “autênticos”). Favorecer o pinheiro é verdadeiramente um ato de fé, o melhor legado que podemos deixar para o nossos filhos e netos, que talvez terão a sorte de contemplar a paisagem como era antes. Se é que o aqueçimento global do planeta permite que isso aconteça...